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QUALIDADE DE MAPAS MENTAIS

Idéias Organizadoras e Mapas Mentais

Organize o pensamento e melhore a qualidade de seus mapas mentais

Por Virgílio Vasconcelos Vilela

Resumo

São apresentados os conceitos de idéias organizadoras e classificações, com vistas a sua aplicação à melhor organização do conteúdo de mapas mentais. É mostrado como as idéias organizadoras afetam o pensamento de quem as lê e como a qualidade de uma classificação afeta a produtividade e a experiência de leitura e aprendizagem de conteúdos semânticos em geral.

Sumário

Introdução

O conceito essencial

        Objetos organizadores

        Idéias organizadoras

Classificações

        Níveis múltiplos e hierarquias

        Múltiplas classificações

Efeitos de idéias organizadoras e classificações no pensamento

        Efeitos de uma idéia organizadora

        Efeitos de classificações

Qualidade de classificações

Aplicabilidade

        Aplicabilidade em geral

        Aplicabilidade em mapas mentais

Conclusão

 

Introdução

Um fato corriqueiro é de vez em quando nos depararmos com uma grande quantidade de coisas de algum tipo. Por exemplo, você deve ter muitos livros, muitos CDs, talvez muitas roupas. Você vai a uma cozinha e lá tem talheres, pratos, copos, panelas, eletrodomésticos, itens de despensa. Além de existirem em quantidade, os itens podem estar em estados variados: guardados, em uso, usados. No disco do seu computador, há centenas de milhares de arquivos, dos quais talvez milhares sejam seus. No seu programa de correio, milhares de mensagens, podendo haver outros milhares se você tem uma conta de correio no trabalho.  No supermercado, milhares de itens, dos quais você eventualmente compra dezenas. Ao elaborar uma tese ou monografia, você terá dezenas ou centenas de referências, sejam sites, sejam obras, que quando lidos produzem milhares de idéias que você tem que trabalhar para atingir seu objetivo. Se você exerce alguma liderança, pode estar às voltas com uma multiplicidade de objetivos, pessoas, recursos, atividades e outros elementos, que deve coordenar para as coisas funcionem minimamente bem. Em mapas mentais, pode-se ter dezenas de subtópicos de um determinado tópico.

Se tivéssemos memória absoluta, muito bem: faríamos o levantamento das coisas e pensaríamos o que fosse necessário sem precisar de mais nada. Mas isso não é normal ou esperável; o fato é que temos limites para o que conseguimos nos lembrar e pensar em um determinado momento. Podemos nos lembrar facilmente de três itens que temos que comprar, mas não de 100. Esses limites geram o risco de esquecimento ou da não consideração: algo é importante e está em nossa memória, mas não nos lembramos desse algo no momento em que seria adequado ou oportuno.

No caso de coisas concretas, como pratos e discos, o que fazemos é agrupar os objetos segundo certos critérios e armazená-los de acordo. Por exemplo, tudo que for copo fica naquele compartimento, o que for prato naquele outro, panelas em outro ainda.  Você deve certamente agrupar seus livros segundo algum critério: por tema, por autor, talvez mais de um critério conforme sua conveniência. Isso é o que é comumente chamado de organizar as coisas.

E no caso de coisas abstratas, como conceitos? O que fazer quando temos centenas ou milhares de conceitos, que resultam em quantidade proporcional de idéias em sua mente? E se, além de serem muitas, essas ídéias estiverem dispersas, fragmentadas, desorganizadas?

Este artigo tem como idéia central mostrar que existem idéias que servem para organizar outras idéias, de maneira análoga a objetos que organizam outros objetos: as idéias organizadoras e seus conjuntos, as classificações.  Descrevemos também como idéias organizadoras podem ser usadas em mapas mentais para facilitar ou mesmo viabilizar o uso dos mesmos. São incluídas também anomalias de organização de idéias, que podem confundir o pensamento de quem lê.

O conceito essencial

Nesta seção é apresentado o conceito central deste artigo. Como preparação, será feita uma analogia com objetos que têm a mesma função no mundo concreto.

Objetos organizadores

Quando você vai à padaria, tipicamente compra vários itens. No balcão, pede ou pega vários pães e eles são postos em um saco de papel ou de plástico. Pega um ou mais frios, um ou outro tipo de pão, talvez aquela sua fonte predileta de prazer alimentício. No caixa, os itens são colocados em sacolas. Sacos e sacolas têm função eminentemente organizadora: agrupam vários outros itens para facilitar seu transporte, por vezes até viabilizá-lo. Sacos e sacolas são assim objetos organizadores. No dia a dia lidamos com vários tipos de objetos organizadores:

 

- clipes, grampos e pastas

- espirais de encadernação

- caixas

- porta-trecos

- porta-CDs

- bolsas

- arquivos ZIP

- menu de programa (organiza itens de menu)

Note que alguns dos objetos tem outras funções além da organizadora: caixas e pastas protegem e facilitam o transporte dos objetos, arquivos ZIP mantêm juntos arquivos compactados, panelas servem para cozinhar. Mas, sob a perpectiva de organização, a finalidade essencial de tais objetos é tornar vários elementos um todo. Por exemplo, vários pães são colocados em uma sacola e assim são transportados em um só volume. Várias folhas de papel são grampeadas e se tornam um caderno. Flores variadas são amarradas para se tornar um buquê. Pense em como seria a vida sem objetos organizadores.

Idéias organizadoras

No mundo das idéias, temos recurso análogo a objetos organizadores. Por exemplo, um planejamento é formado por atividades, coisas que são executadas. Já etapas e fases agrupam atividades em blocos. Ninguém executa diretamente uma etapa, mas sim as atividades que constituem a etapa. Outro exemplo: ao se construir uma casa, há que se desenhar plantas variadas, e isto é chamado de projeto.  A palavra ‘projeto’ nesse caso agrupa algumas atividades que faz sentido manter juntas.

A idéia associada ao significado da palavra projeto é chamada idéia organizadora, assim como as idéias associadas a etapa ou fase (às vezes achamos interessante chamar tais idéias de idéias-clipe ou idéias-caixa). A diferença entre idéia organizadora e objeto organizador é que uma idéia organizadora é abstrata, é um conceito, só existe como um significado na mente de alguém, enquanto que um objeto organizador é concreto, material, e assim possui dimensões e peso e pode ser visto, sentido e movido.

(Veja que não dissemos palavra organizadora. Há símbolos e há seus significados; o símbolo - palavra, expresão ou imagem - existe, mas o seu significado só passa a existir quando alguém o interpreta. Aqui entendemos que o significado é que faz o papel organizador)

Assim como objetos organizadores, idéias organizadoras são muito comuns. Exemplos:

- Qualquer site da web um pouco maior é dividido em seções, cada seção com seu conteúdo. Também neste caso cada seção está associada a uma idéia organizadora.

- Livros podem ser divididos em capítulos. Cada capítulo terá (esperamos) pelo menos uma idéia organizadora por trás dele.

- Em Português há o conceito de figura de linguagem: metáfora, analogia, catacrese, ironia. As várias figuras são agrupadas em categorias: figuras de sintaxe, figuras de pensamento.

- Os termos designativos de plurais representam idéias organizadoras: bichos, meus pertences, gatos, felinos. Também o fazem os coletivos: alcatéia (lobos), enxame (abelhas), biblioteca (livros). Quando você se refere por exemplo a "meus discos", está usando uma idéia organizadora.

 

Idéias organizadoras são utilíssimas para que possamos trabalhar com maiores quantidades de informação e conhecimento.  Para dar um exemplo extremo, pense em como seriam projetados e construídos por exemplo submarinos, porta-aviões e naves espaciais – máquinas de extraordinária complexidade - se o planejamento fosse uma simples lista não organizada de atividades.

Classificações

Em geral uma idéia organizadora não é suficiente. No caso de uma estante, é preciso ter várias idéias organizadoras para acomodar os vários tipos de livros. No seu armário de roupas isso também se aplica, assim como para as prateleiras do supermercado e os capítulos de um livro. Temos então um conjunto de idéias organizadoras que compõem um todo, e cada item a ser organizado tem um lugar no todo. Esse conjunto de idéias organizadoras é chamado de classificação. Classificar, neste contexto, é agrupar vários elementos em classes, tipos, categorias, ou seja, idéias organizadoras.

Classificações estão também por toda parte. O conjunto de seções do seu armário, as suas categorias de CDs e DVDs, as divisões de um caderno escolar. Na Biologia, a classificação dos seres vivos em espécies, gêneros, famílias, ordens, classes e filos. A tabela periódica classifica os elementos químicos . Os capítulos de um livro e as seções de um site são classificações dos respectivos conteúdos. No meio científico, tais estruturas podem ser chamadas de taxonomias.

Você de vez em quando tem que lidar com a questão de definir uma classificação. Por exemplo, estantes, armários de cozinha, caixas de ferramentas e bolsas são estruturados, mas você é que tem que determinar o que vai em cada compartimento, e então tem que não só classificar os objetos como também produzir uma classificação - uma estrutura lógica - compatível com a estrutura física disponível.

Um aspecto interessante é que uma classificação muitas vezes é reutilizável: se você usa uma certa organização em seu armário, outra pessoa pode usá-la para organizar suas próprias roupas e calçados. Considerando-se que definir uma boa classificação nem sempre é imediato e pode requerer muitas passagens, mudanças e evolução, dispor de uma boa classificação pronta para um conteúdo é um importante fator de produtividade ao se lidar com conhecimentos.

Níveis múltiplos e hierarquias

Quando você compra no supermercado, os itens são em geral colocados em sacolas, que depois serão colocadas no carrinho para serem levadas ao carro. No caso dos pães, por exemplo, eles estarão em um saco, que será colocado em uma sacola, que será colocada no carrinho. Tem-se então um objeto organizador (saco) dentro de um objeto organizador (sacola) dentro de um objeto organizador (carrinho), definindo assim níveis de organização: o carrinho, a sacola, o saco. Outro exemplo seria uma caixa de bombons dentro de uma sacola dentro de uma caixa dentro do porta-malas.

De maneira análoga, idéias organizadoras podem estar dentro de idéias organizadoras. Na classificação dos seres vivos tradicional, os reinos, filos, classes e os demais definem níveis na estrutura. A estrutura de diretórios de serviços de pesquisa da internet como o Google e o Yahoo constituem outro exemplo de classificação nivelada. As pastas do seu disco rígido também. Esse tipo de composição nivelada forma uma hierarquia ou árvore.

Observe que uma estrutura hierárquica pode ter várias aparências diferentes (figuras), mas a essência - a estrutura - segue um mesmo padrâo, caracterizado por elementos ligados uns aos outros a partir de um elemento central e sem ligações entre elementos de ramos distintos..

   

Múltiplas classificações

Considere as coisas que você tem para fazer. Dependendo de quantas responsabilidades e objetivos você tem, podem ser muitas: coisas de casa, de trabalho, hobbies, rotina, como ver e-mails. As coisas que você tem para fazer compõem um conjunto que pode ser organizado de várias maneiras. Por exemplo, por local: quarto, computador, centro da cidade, banco. Também pode ser organizado por prioridade: urgentes, importantes e não importantes ou  0, 1 e 2.

Assim, pode haver várias classificações para o mesmo grupo de elementos. Qual é a melhor? Bem, depende. Quando você está resolvendo o que fazer, certamente é bom ter as atividades organizadas por prioridade, você vai querer fazer as mais importantes primeiro. Mas, quando você está levantando as coisas que tem para fazer, e nem tem prioridades ainda, pode ser melhor outro tipo de organização, como por local. Por outro lado, pode ser que você esteja no centro da cidade e tenha algo a fazer por lá que não é tão importante, mas você pode aproveitar a oportunidade de estar lá para fazer logo, como devolver um vídeo na locadora.

Desta forma, ao classificar coisas, você vai querer respostas para as perguntas:

- De quais formas posso organizar isto?

- Qual a melhor forma de organizar isto?

A escolha da melhor classificação está muito associada à forma como será usada. Por exemplo, você pode organizar livros em ordem alfabética e isso define que ao procurar um livro usará essa ordem. Se usa muito alguns livros, pode deixá-los sobre um espaço da mesa para agilizar o acesso ao livro.

Efeitos de idéias organizadoras e classificações no pensamento

Existem causas e efeitos. O efeito potencial de uma piada é fazer rir; efeitos possíveis de alimentar-se podem ser nutrir-se e ter prazer. O efeito desejado de estudar é aprender. Neste caso, em que há inteligência envolvida, preferimos referir-nos a aprender como resultado, e estudar como ação. Normalmente os resultados das ações é que constituem objetivos pessoais: você quer o resultado "aprender", mas não necessariamente quer a ação "estudar". Quando você faz uma vitamina no liquidificadorr, o que quer está ligado ao resultado ou efeito proporcionado pelo processo de liquidificar.

Se conhecermos os efeitos de idéias organizadoras, e eles forem interessantes, quando quisermos esses efeitos - ou seja, eles sendo nossos objetivos - poderemos usar idéias organizadoras como um passo ou parte de uma estratégia para conseguir o que queremos. Este é o propósito desta seção, descrever potenciais efeitos de idéias organizadoras em nosso pensamento.

Efeitos de uma idéia organizadora

O que vem à sua mente quando pensa em "meus livros"? Se seus livros estão todas em uma estante, é natural que você se lembre dela e de seu conteúdo. Se você tem livros sobre a mesa, deve vir também uma outra imagem da mesa com foco nos livros.

Agora, experimente pensar por alguns segundos em:

- "meus melhores amigos"

- "meus discos"

- "meus CDs"

- "meus DVDs"

- "as namoradas/os namorados que eu tive"

Note que um possível efeito de uma idéia organizadora em seu pensamento é trazer lembranças. Dito de outra forma, acessar conhecimentos. Você não teria pensado nessas coisas, o fez a partir dos estímulos proporcionados pelas palavras.

Note também que isso não é um efeito propriamente de idéias organizadoras, e sim da linguagem. Faz parte da interpretação da linguagem a captação de lembranças e conhecimentos que vão constituir o significado do que você interpreta. Se alguém lhe perguntar "o que fez nas últimas férias?", para responder você naturalmente ativará lembranças relacionadas. Testando: o que você teve no  café da manhã? Qual foi o último filme que você assistiu? Qual é seu prato predileto? A diferença quando as palavras usadas constituem uma idéia organizadora é que nos induzem a buscar um conjunto de elementos relacionados ao significado da idéia.

Ou seja, a grande utilidade das idéias organizadoras, para os nossos objetivos, é servir de canal ou filtro de acesso a experiências e conhecimentos. Note que há uma semelhança desse processo com um serviço de pesquisa da Web como o Google: você fornece palavras-chave e o Google lhe retorna possibilidades, a partir das quais você escolherá as que melhor parecem relacionar-se ao que você está procurando.

Quanto mais genérica a idéia organizadora, potencialmente maior conteúdo terá, e portanto será potencialmente menor a chance de que você acesse tudo que pode. Por exemplo, pensar em "todos os meus dedos" deve lhe induzir imagens das mãos e dos pés, com foco nos dedos - tudo que há para se lembrar. Já pensando em "meus conhecimentos", você tem tantos que acessará apenas uma parcela deles, podendo ocorrer até um bloqueio, não vir nada, por falta de um critério mais específico para acesso à sua memória.

Efeitos de classificações

Se uma idéia organizadora tem o efeito de induzir o acesso a conhecimentos, várias idéias organizadoras, na forma de uma classificação, têm o potencial de induzir o acesso a vários blocos relacionados de conhecimento. Um biólogo que domine a estrutura da classificação dos seres vivos têm à sua disposição canais para seus conhecimentos sobre seres vivos. No seu caso, conhecer a organização do seu armário lhe abre as portas para lembrar o que há lá.  Se você tiver certos "recursos" bagunçados, organizá-los, classificá-los, vai facilitar sua localização e portanto seu uso.

Podemos sintetizar o efeito de classificar como sendo uma aplicação do princípio de dividir-para-conquistar. Ao invés de lidar com um monte de elementos sem ordem, eles são agrupados e cada grupo ou classe pode ser tratado em separado, sem se perder de vista suas relações com o resto do todo. Consideramos que um nome mais significativo para esse princípio é estruturar-para-conquistar.

Note que essa generalização não é absoluta: se você pode se lembrar onde está cada coisa de que precisa, não precisa de classificação, como no caso em que sua mesa parece bagunçada para as pessoas mas se alguém arrumá-la será um desastre!

Um outro efeito ocorre no sentido inverso, do nível mais genérico para o mais específico. Suponha que você seja solicitado a elaborar 100 perguntas para entrevistar uma pessoa no polígrafo, o detector de mentiras. Se você não é do ramo, talvez tenha um "branco": nada vem. Agora considere que há 2 categorias de perguntas para o detector: de controle e relevantes. As questões de controle visam calibrar as medições e são triviais, como "A lâmpada deste local está acesa?". Claro que você sabe bolar perguntas de controle até de improviso. Os efeitos da classificação são nesse caso lhe permitir perceber que de fato já sabe executar parte da atividade e se concentrar no que não sabe.

Assim, quando uma classificação é nivelada, os níveis compõem como que caminhos em sua mente, que podem ser percorridos em qualquer sentido ou rota.  Isso é semelhante a ter um mapa: o mapa nâo é o território, mas é um modelo que o guia neste. Claro, isto só é possível quando você domina a classificação em questão; se isso não ocorrer, tipicamente você usará um apoio externo, como olhar para o móvel onde estão as coisas ou para uma representação escrita ou desenhada da classificação.

Qualidade de classificações

Em uma classificação ideal, cada elemento tem o seu lugar na estrutura de idéias organizadoras e não poderia ser colocado em outra. Essa característica permite que determinemos a categoria de um livro, por exemplo, e imediatamente saibamos em que local da estante ele está.

Agora, considere uma estante que tem grandes áreas para Português e Inglês e também uma área de Dicionários. Onde seria colocado um dicionário de Inglês? Pelos critérios de classificação, ele poderia ser colocado em ambas as seções. Um exemplo real é o de um site com duas seções primárias: Ecologia e Meio-ambiente, que no nosso pensamento são dois conceitos muito relacionados. Esses são exemplos de interseção de significado de idéias organizadoras. Os efeitos de interseções de significado podem ser dúvida e confusão na inserção de novos elementos (onde colocar tal elemento?) e na recuperação de um elemento (onde está?).

Outra situação potencialmente problemática é quando, ao inserir um novo elemento, não há na estrutura uma idéia organizadora  onde ele possa ser encaixado. Talvez você tenha passado por essa situação ao tentar arquivar uma mensagem de correio e não achar uma pasta apropriada.

Essas características que reduzem a qualidade de classificações e que prejudicam seu melhor uso são chamadas anomalias estruturais. Em uma classificação com anomalias, as idéias não se encaixam perfeitamente, os significados ficam misturados e isso resulta em dificuldade de compreensão, desconforto de pensamento e menor produtividade de aprendizagem e uso da classificação.

Outro exemplo concreto: um site de internet banking tem a ajuda de página estruturada nas seguintes classes:

Objetivo

Horário de Atendimento

Condições de Uso

Descrição do Serviço

Observações

Custo do Serviço

Suponha que você quer saber o passo a passo para executar a operação, suponhamos, uma transferência entre contas. Onde você procura? Talvez em Descrição do Serviço, mas sem muita clareza. E o custo e o horário, não seriam também condições de uso? E o que há em Observações? Essa estrutura provavelmente confundiu a pessoa ou as pessoas que elaboraram o texto, que fizeram por exemplo o seguinte:

- Os valores permitidos ("Pessoa Física: a partir de 15/09/06 mínimo de R$ 5,00 e máximo de R$ 1.500,00 por dia") estão tanto em Condiçõies de Uso quanto em Descrição do Serviço.

- O texto "Os agendamentos ou pagamentos efetuados em feriados nacionais e finais de semana serão efetivados no próximo dia útil subseqüente ao da solicitação" está tanto em Descrição do Serviço quanto em Observações.

Essas anomalias de classificação dificultam a representação e o acesso à informação e, embora uma ocorrência individual não seja significativa, uma grande quantidade delas acaba gerando grandes perdas de tempo e afetando a qualidade dos processos que dependem da informação e do conhecimento classificados.

Aplicabilidade

Entendemos que o valor de um conceito é melhor medido pela sua aplicabilidade em situações práticas, isto é, sua utilidade. De fato, iniciamos este artigo justamente por possíveis contextos de aplicação do conteúdo, a pretexto de motivação para você continuar a leitura. Nesta seção  relacionamos várias aplicações do conceito de classificações, incluindo as já mencionados e usando os conceitos descritos. Também vinculamos os conceitos a mapas mentais.

Aplicabilidade em geral

- Ao escrever textos mais longos, você deverá definir uma estrutura de seções ou capítulos e seções, que constituirão idéias organizadoras estruturadas logicamente, ou seja, uma classificação.

- Ao planejar, você terá uma série de atividades que serão agrupadas em fases, etapas e possivelmente outros conjuntos.

- Ao definir como serão dispostos pratos, talheres, panelas e outras peças de uma cozinha, você estará definindo uma classificação dos itens (além de mapear essa classificação à estrutura física de armários). O mesmo se aplica a outros tipos de armários e guarda-coisas, como armário de roupas, armários do banheiro e estantes.

- Classificação de discos e fitas.

- Estruturação de pastas de mensagens de correio e de arquivos em disco.

- Estruturação de um site. Aqui há pelo menos três níveis: a estruturação de conteúdo; para o programador, a estrutura de diretórios que abrigará as páginas; para o designer, a distribuição dos elementos de uma página no espaço disponível.

- Estruturação da hierarquia de uma empresa. Em uma área da empresa, a distribuição de responsabilidades por entre os papéis.

De maneira geral, onde houver conteúdo semântico, haverá um potencial de aplicação de idéias organizadoras. Como mapas mentais têm estrutura hierárquica, há uma correspondência direta entre a aplicabilidade de idéias organizadoras e a de mapas mentais.

Aplicabilidade em mapas mentais

Veja o mapa mental abaixo. Note que cada tópico de nível 1 contém uma idéia organizadora: Recursos, Ingredientes, Preparo.

Os três tópicos de nível 1 formam um conjunto, um todo, que contém o que é necessário para se fazer uma omelete, seja objetos, sejam ingredientes, seja o processo que usa os objetos para transformar os ingredientes no prato final.

Portanto, um dos usos de idéias organizadoras é, quando houver uma grande quantidade de subtópicos em algum tópico, agrupá-los segundo idéias organizadoras. Isso pode ser feito para um tópico ou para todo o mapa mental, conforme a necessidade e a conveniência. Idéias organizadoras e seus conjuntos, as classificações, são de fato um elemento estrutural e fundamental em um mapa mental ligeiramente maior.

Considerando-se que classificações são reutilizáveis, boa parte de um mapa mental pode ser replicada quando apropriado. Por exemplo, se você for mapear uma outra receita de culinária, pode usar a estrutura do mapa mental da omelete como modelo, ganhando muito em produtividade.  Maior produtividade ainda resulta do fato de que idéias organizadoras direcionam nosso pensamento; desta forma, quando você for mapear a outra receita, a classificação lhe guia quanto aos conhecimentos a recuperar em cada etapa. Por exemplo, se a receita for de arroz, primeiro você procura os recursos: panela para o arroz, panela para ferver água, colher, travessa para servir; depois, os ingredientes: arroz, temperos, e assim por diante. A estrutura de idéias de uma classificação funciona como um mini-método de recuperação de conhecimentos.

Aqui é útil também a distinção entre representação de idéia organizadora e seu significado. Por exemplo, o tópico "Ovos" isoladamente seria um substantivo concreto, mas, no caso, ele representa uma idéia organizadora que agrupa os passos do preparo dos ovos para a omelete. Isso ocorre porque em um mapa mental, a representação de um tópico utiliza os tópicos superiores como contexto. Como outro exemplo, em um mapa mental de coisas para fazer você tipicamente não teria tópicos como

Contas

    Conta de telefone

    Conta de luz

    Conta de água

mas sim

    Contas

        telefone

        luz

        água

Conclusão

O conceito de idéias organizadoras aparentemente foi introduzido por Tony Buzan no livro The Mind Map Book. No entanto, esse conceito não foi aprofundado, em particular com relação a anomalias estruturais. Neste artigo buscamos detalhar e enriquecer seu significado de forma a ampliar e facilitar sua ampla aplicabilidade.

O objetivo deste artigo não é ensinar, mas sim apresentar e descrever, de forma que você possa avaliar a utilidade e a importância do conteúdo. Na nossa metodologia de ensino, o processo de ensinar tem elementos adicionais (veja por exemplo a lição sobre redução de texto), sendo que o curso referente a este artigo está em desenvolvimento, incluindo habilidades cognitivas e conteúdos adicionais. Não obstante, é concreta a possibilidade de você aplicar o conteúdo sem mais atividades, como provavelmente já fez em tantas ocasiões.

 

 

Copyright 2002-2008 Virgílio Vasconcelos Vilela

* Permitida a reprodução desde que citados o autor e a fonte (obséquio dar conhecimento)